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Existe o melhor momento para começar uma análise?

Essa pergunta aparece com frequência e supõe que haveria um ponto ideal — um tempo certo, uma condição adequada — a partir da qual a análise poderia, então, começar. Talvez seja decepcionante, mas a psicanálise não se orienta por essa lógica.

Não existe um “melhor momento” no sentido de um tempo correto, maduro ou garantido. O que existe é um encontro possível entre desejo e possibilidade. E esse encontro não obedece a calendários nem a critérios objetivos.

Muitos chegam à análise quando algo falha. Uma perda, um sintoma, uma repetição que se torna insuportável. Outros chegam quando tudo parece funcionar, mas sem efeito de vida. Em ambos os casos, não é a gravidade da situação que decide, mas o ponto em que o sujeito já não consegue seguir do mesmo modo.

O desejo, aqui, não é vontade consciente nem decisão racional. Ele se manifesta de forma indireta, às vezes até contraditória: numa queixa que retorna, numa pergunta que não se cala, num incômodo que insiste apesar das tentativas de contorno. O desejo não diz “quero fazer análise”; ele diz: “Assim não dá mais”.

Mas o desejo, sozinho, não basta. É preciso que haja possibilidade. Possibilidade de tempo, de investimento, de suportar não saber. Possibilidade de sustentar um espaço onde não se promete solução rápida, nem respostas prontas. Nem todo momento de sofrimento é, automaticamente, um momento de análise.

Às vezes o desejo aparece, mas a possibilidade ainda não. Às vezes a possibilidade existe, mas o desejo ainda não se apresentou. Forçar essa conjunção — seja pelo desespero, seja pela idealização — costuma produzir mais resistência do que trabalho.

Quando desejo e possibilidade se encontram, não é porque tudo está claro, mas justamente porque algo não está. Há uma abertura mínima para falar, para escutar o que se diz, para não responder imediatamente ao que angustia. Esse ponto não é confortável, nem heroico. É discreto.

Talvez, então, o melhor momento não seja quando a vida está organizada, nem quando está em colapso. Mas quando o sujeito pode sustentar uma pergunta sem exigir que ela se feche rápido demais.

A análise começa aí: não quando se tem certeza de que é a hora, mas quando se aceita entrar num tempo em que não saber ainda é possível.